Moda, crise de estilo e consumismo

Senta que lá vem textão:

Já faz um tempo que me rendi a um estilo de consumo que é o único que me parece viável: faz uma data que não coloco os pés em uma loja convencional. Isso rolou primeiro porque eu não tinha a grana necessária pra adquirir coisas que eu queria. Depois, pensando nos apelos de sustentabilidade, tanto social quanto ambiental, comprar em brechós, que pra mim já era hábito, passou a ser a opção que me parecia menos poluente e mais ética.

(Só abro um parêntese pra falar que não acredito em uma moda 100% ética com o sistema que a gente tem hoje, porque a cadeia produtiva é grande demais, cruel demais e a gente sempre acaba com um pouco de sangue nas mãos. Mas isso não significa desistir de tentar.)

Mas a gente sabe que as coisas não funcionam desse jeito.

Durante os anos, fui formando um guarda-roupa com bons básicos e outras peças que eu gosto de chamar de “as minhas esquisitinhas”, com as quais eu me identifico pra caramba e me sinto bem. Minhas amigas costumam se espantar com a quantidade de roupas que eu tenho, e meu avô, toda vez que me visita, diz que daqui a uns dias eu não terei mais espaço pra recebê-lo.

Então, nos últimos meses, passei a cortar até mesmo as compras em brechós: ora, se eu tinha tantas peças e opções assim, o certo seria que me contentasse com elas, não é? Cês conhecem o conceito de guarda-roupa cápsula, em que você tem itens mais básicos e os intercambia pra looks diferentes? Pois é, resolvi que tinha chegado ao meu limite e que não compraria mais, e que meu cápsula seria aquele gigantão ali mesmo.

Outro dia, passeando no shopping, resolvi entrar numa certa loja estrangeira da sacolinha amarela que cês sabem qual é. Aquela que tem umas coisas “baratinhas” e que já acumulou filas e filas aqui no Brasil. O prazer de ver roupas se transformou rapidamente em agonia: eu fiquei pensando no quão cruel é esse sistema que escraviza países subdesenvolvidos, mata comércios locais com preços altamente competitivos e diz pra gente o tempo todo: “essa é a nova peça de roupa que você precisa pro seu guarda-roupa ser completo. Com ela, você vai ser mais feliz. Sem ela, você está sem graça, inadequada, fora de moda.” Todas as vezes que eu comprei assim, tive meus 15 minutos de felicidade seguidos por um vazio bem chato e sem nome.

Tem um filósofo muito massa chamado Lars Svendsen que escreveu um livro sobre moda e filosofia. Nele, o argumento é de que antes, no sistema da moda, a gente tinha uma lógica de substituição: a coleção anterior era substituída pela nova, e quem ficava de fora da substituição era tachado de cafona, atrasado, etc. Hoje, na leitura dele, a gente tem um sistema de acumulação: estilos muito diferentes são bem-vindos, bem-vistos e aceitos.

De fato, tenho que concordar: hoje em dia temos muito mais essa lógica de acumulação. Quantas vezes, nos últimos anos, você viu uma modelagem dos anos 60 voltar? Ou uma estampa dos anos 70? Quantas vezes achou uma peça meio esquecida no guarda-roupa da sua vó que agora tá com tudo? A circularidade (e uma certa autofagia) da moda foi dando lugar a um novo sistema de consumo. Para que isso não afete os lucros, já que as peças já não ficam obsoletas com tanta facilidade, a estratégia de vendas e incentivo do consumo mudou. Mas isso não quer dizer que esses novos modos de fazer e consumis são menos ambíguos, irresponsáveis ou excludentes.

Não se enganem: as coisas continuam sendo perfeitamente substituíveis. A sua modelagem de calça flare tá ultrapassada, e a cor que antes você chamava de vinho agora é burgundy. A blusa certa é aquela comprida que tem fenda. Você não tem? Ah, ok, mas então você não se encaixa direito. Falta alguma coisa, sabe? Tem que ser lacração, chegar com o pé na porta. Tem que estar na crista da onda, ser descolado. Não é? Então não é. De repente, suas estimadas roupas parecem sem-graça, inferiores frente a um glamour vendido disfarçado de “estilo”.

Esse texto não pretende dar resposta alguma. Ele é só um desabafo, um reconhecimento da minha (nossa?) impotência perante um sistema que tá sempre falando que a gente tá inadequada, que tá correndo atrás e não do lado, que falta só um pouquinho pra chegar lá. A moda como identidade passa a ser uma coisa rasa, dependente de ditames super distantes da nossa realidade, e acaba por frustrar pra caramba.

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